Encontro afetivo por meio da adoção dá novo sentido ao Natal de família

10 Dez 2019

Por: TJDFT
Foto: TJDFT

Desde abril deste ano, a casa de Allan Terra e Wilson Souza não é mais a mesma. Tampouco serão as festividades do Natal. O casal adotou, em abril deste ano, o menino Leandro. Aos seis meses de idade, o bebê ganhou um novo lar após ter ficado boa parte do período anterior de vida internado, com histórico de paradas cardiorrespiratórias e de convulsão. A agnesia de fêmur – um encurtamento na perna –, com a qual Leandro nasceu, não impede de ele já dominar a casa dos pais. “A pediatra, quando o vê, fica encantada. Um bebezinho que nem se mexia na cama, agora dá mil voltas”, relata Allan, orgulhoso.

“A expectativa é ter um Natal ainda mais repleto de significados. E sendo esse o primeiro com o Leandro, e praticamente o primeiro dele também, haja vontade de comemorar!”, divide Allan. Ano passado, nesta época, ele estava saindo de dois meses de internação e indo para a instituição de acolhimento. Os pais contam que, antes de tudo, o desejo deste ano é de comemorar. “Acho que a essência é mostrar todo esse lado colorido e lúdico, e, principalmente, celebrar a união e agradecer por nosso encontro”, completa Allan.

A adoção de crianças e adolescentes com alguma deficiência ou com graves problemas de saúde foge ao padrão majoritariamente eleito pelos adotantes. A preferência padrão no país é por crianças saudáveis. Em 2017, sete crianças foram adotadas; em 2018, foram oito. Até o momento, oito crianças com esse mesmo perfil foram acolhidas em novos lares em 2019. Para sensibilizar a adoção fora do perfil – de adolescentes, grupos de irmãos e jovens com deficiência ou problema grave de saúde -, a Vara da Infância e da Juventude do Distrito Federal (VIJ-DF) criou, em maio deste ano, o projeto Em Busca de um Lar. Saiba mais aqui.

Vontade compartilhada

Allan conheceu o esposo, Wilson, em 2015, através de uma rede social. Logo no primeiro encontro pessoalmente, Wilson contou que estava na fila para adotar uma criança, no Rio de Janeiro, onde moravam. “Eu achei bem corajoso da parte dele entrar sozinho. Eu também tinha vontade, mas, sozinho, não vou dizer nunca, mas talvez eu esperasse mais”, conta Allan.

O tempo passou, o relacionamento se consolidou e vieram morar em Brasília por motivos profissionais. Na Capital, os dois decidiram que era hora de estarem juntos no processo de adoção. Em 2017, entraram na fila oficialmente. “Era um desejo compartilhado dos dois de ser pai”, explica Allan.

É preciso ser honesto na escolha

Ao se candidatarem à adoção, os dois concordavam que o filho não precisava ser um recém-nascido. O estudo e o compartilhamento de experiências durante o curso de habilitação os levaram até o perfil de Leandro. Durante a formação, ouvindo todas as orientações e depoimentos, eles adicionaram um ano à idade desejada e a possibilidade de a criança ter deficiência motora. “Hoje em dia tem tanto recurso, tanta coisa que pode ajudar. Por que não?”, defende Allan.

Os dois contam que também pesaram na escolha do perfil as conversas em casal e com a família, quando definiram não estarem aptos a adotar uma criança com deficiência intelectual. “A gente está aqui sem estrutura de família, estamos só nós dois. Ficamos preocupados quanto a não conseguir dar o suporte necessário”, explica Allan. Wilson conta, inclusive, que foram apresentados à história de uma criança nesses parâmetros e, que, pensando no melhor para ela, não iniciaram a aproximação. “É sempre muito ruim dizer não, vou ser bem honesto. É como se a gente tivesse ajudando o abandono, um sentimento muito ruim. Mas ponderamos que seria o melhor”, relata Wilson.

Identificação

Meses depois, em abril de 2019, eles foram chamados novamente à Vara da Infância. “Por conta de todo movimento de adoção de crianças maiores e da nossa abertura de perfil para crianças mais velhas, ficamos surpresos”, relata Allan. Ao contrário do esperado pela maioria dos adotantes, a expectativa do casal não era adotar um bebê. Junto com a questão da idade, veio o histórico de saúde de Leandro e a deficiência motora. “Eles começaram a descrever todo o perfil dele, sendo muito honestos. Contaram a história e as possibilidades que eventualmente ele poderia ter. Como ele é bebê, é difícil prever o desenvolvimento, foram muito transparentes quanto a isso”, explica Wilson.

Após as explicações, os pais pediram para ver uma foto do menino. “Quando mostraram a foto dele falamos: é ele. Aí a gente teve certeza”, recorda Allan. Ele conta que conversaram com a equipe da instituição de acolhimento na qual Leandro estava acolhido para ter a certeza de que poderiam cuidar da criança.

Os pais contam que o primeiro encontro na instituição de acolhimento foi marcante. “Quando eles o trouxeram, quando a gente viu, foi uma emoção muito forte. Trancou a garganta”, confidencia Wilson. “Você vê aquela criança chegando e já sente que ali tem alguma coisa diferente. Não é uma “criança qualquer”, é o seu filho. É muito especial. E ele tem isso desde cedo”, completa Allan.

Criança é criança

“Quando nos ligaram e contaram que tinha um bebê de seis meses, foi assim: poxa, será que vamos conseguir cuidar mesmo sem experiência nenhuma com criança?”, relata Wilson. Por outro lado, a pouca idade despertou encantamento. “Um bebê de seis meses é praticamente um recém-nascido. Você tem todo o tempo para ele aprender, inseri-lo dentro do lar, ensinar”, ponderou Allan.

Com o sim dos pais, o estágio de convivência foi rápido, por se tratar de um bebê já com o poder familiar extinto. Allan e Wilson relatam que também precisaram ser rápidas as adaptações na casa para a chegada do filho. “Um bebê? Você tem que ter berço, a gente não tinha. Você tinha que ter enxoval, chupeta, mamadeira e uma série de outras coisas que a gente foi descobrindo ao longo do processo”, brinca Allan. Uma das avós veio para ajudar nos preparativos. Os dois recordam que o suporte da família foi fundamental, mesmo morando em outros estados.

Junto aos preparativos na casa, os pais ainda dividiram o tempo indo à instituição de acolhimento para passar o dia com Leandro e aprender a rotina de cuidados dele. “Ao mesmo tempo que dá muito trabalho, foi muito bom. É muito prazeroso porque são as descobertas que a gente vai fazendo”, relata Allan. Para os cuidados básicos de qualquer criança, Leandro segue acompanhado pela pediatra. Prematuro de sete meses, ele já se encaixou na curva de crescimento normal para sua idade. O menino também é atendido pela Rede Sarah para acompanhamento do desenvolvimento motor, em razão da agnesia.

Encontro que cria laços

“Ele vai no colo de todo mundo. E por mais que ele seja muito sociável e fique tranquilo, ele já procura os pais. Isso dá um orgulho”, revela Allan. Apesar do encantamento inicial, eles relatam que a configuração dos papéis de pai e filho foi sendo construída. “Agora soa natural. Antes era um bebê, dentro de casa, que necessita de uma série de cuidados e você está cuidando. Mas essa passagem para se tornar filho aconteceu muito rápido”, explica Wilson.

Ele se emociona ao relembrar das primeiras vezes em que Leandro, ao olhar para Wilson, deixou de chorar, sorriu ou mesmo quando balbuciou as primeiras sílabas: “aí você virou pai”. Segundo ele, a palavra “encontro” define o significado de adotar. “Foi Deus que fez a gente se encontrar, independentemente da forma como nosso filho chegou. E veio porque é nosso”, expressa Wilson. Allan concorda e reflete: “a adoção é um encontro. São encontros que acontecem não somente da criança com os pais, mas também dela com toda a família e com todos aqueles que o cercam”.